{"id":197,"date":"2018-07-30T16:33:55","date_gmt":"2018-07-30T15:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/josemota.pt\/aprendernarede\/?page_id=197"},"modified":"2026-09-05T16:56:34","modified_gmt":"2026-09-05T15:56:34","slug":"1-2-a-cultura-participatoria-e-a-read-write-web","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/josemota.pt\/aprendernarede\/parte1\/capitulo1\/1-2-a-cultura-participatoria-e-a-read-write-web\/","title":{"rendered":"1.2. A Cultura Participat\u00f3ria e a Read\/Write Web"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este irromper das vozes individuais, m\u00faltiplas, na esfera p\u00fablica amplificada e distribu\u00edda que \u00e9 a web provocou ondas de choque que abalaram a pr\u00f3pria funda\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dia tradicionais, confrontados com a perda do poder que detinham sobre a produ\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o consumida pelo grande p\u00fablico. Nas palavras de O\u2019Reilly,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>The world of Web 2.0 is also the world of what Dan Gillmor calls &#8220;we, the media,&#8221; a world in which &#8220;the former audience&#8221;, not a few people in a back room, decides what&#8217;s important. (30-09-2005: 3)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os blogues, os wikis, os podcasts, o Youtube, sites como o Digg, entre tantos outros servi\u00e7os, s\u00e3o os emissores de onde brotam vis\u00f5es de base, amadoras (em mais do que um sentido), empenhadas em partilhar vis\u00f5es do mundo e do quotidiano fora dos poderes editoriais institu\u00eddos, tecendo a teia plural a partir de uma grande diversidade de pontos de vista. Falando ainda deste p\u00fablico que tomou nas suas m\u00e3os o poder de produzir e distribuir informa\u00e7\u00e3o, escreve Jay Rosen numa esp\u00e9cie de manifesto intitulado The people formerly known as the audience (Rosen, 27-07-2006):<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>The people formerly known as the audience wish to inform media people of our existence, and of a shift in power that goes with the platform shift you\u2019ve all heard about.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como n\u00e3o sorrir perante isto? A Web 2.0 tamb\u00e9m corporiza, em muitas das suas formas de express\u00e3o, um ineg\u00e1vel sentido de humor e de prazer na comunica\u00e7\u00e3o. Como escrevia Christopher Locke j\u00e1 em 1999, em The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual, \u201cIrony is perhaps the most common mode of Internet communications\u201d (Cap. 7). Mas quem s\u00e3o estas pessoas, ainda segundo Rosen? S\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>[t]he writing readers. The viewers who picked up a camera. The formerly atomized listeners who with modest effort can connect with each other and gain the means to speak\u2014 to the world, as it were. (Rosen, 27-07-2006)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se pense, contudo, que estamos apenas perante um cen\u00e1rio ca\u00f3tico ou an\u00e1rquico de informa\u00e7\u00e3o desconexa, sem valor, para uso dom\u00e9stico ou divertimento dos amigos mais pr\u00f3ximos. Esse tipo de produ\u00e7\u00e3o por parte dos utilizadores existe, e em n\u00famero substancial, mas as coisas n\u00e3o se resumem a isso. J\u00e1 em 2003, no seu relat\u00f3rio para o Media Center do American Press Institute, intitulado We Media: How Audiences are Shaping the Future of News and Information, Shayne Bowman e Chris Willis definiam assim este jornalismo feito por cidad\u00e3os comuns:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Participatory journalism: The act of a citizen, or group of citizens, playing an active role in the process of collecting, reporting, analyzing and disseminating news and information. The intent of this participation is to provide independent, reliable, accurate, wide-ranging and relevant information that a democracy requires. (Bowman &amp; Willis, 2003: 10)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Objectivos nobres e elevados, como pode ver-se, e que t\u00eam vindo a ser perseguidos com persist\u00eancia e de forma cada vez mais disseminada. A voz dos cidad\u00e3os no imenso espa\u00e7o p\u00fablico que \u00e9 a web pode ser encarada como um dispositivo de refor\u00e7o da pr\u00f3pria democracia e de express\u00e3o de uma cidadania completa:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Once they were your printing presses; now that humble device, the blogue, has given the press to us. That\u2019s why blogues have been called little First Amendment machines [1]. They extend freedom of the press to more actors. (Rosen, 27-06-2007)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, a participa\u00e7\u00e3o das pessoas, dos n\u00e3o-profissionais, n\u00e3o se resume \u00e0 quest\u00e3o das not\u00edcias. A verdade \u00e9 que rapidamente as empresas e servi\u00e7os perceberam que os utilizadores adicionam valor, e essa \u00e9 uma das li\u00e7\u00f5es que O\u2019Reilly retira do fen\u00f3meno da Web 2.0 (O\u2019Reilly, 30-09-2005). Mas nem todos o fazem volunt\u00e1ria e deliberadamente. Essa arquitectura de participa\u00e7\u00e3o tem que ser planeada, organizada e suportada pelas pr\u00f3prias formas como os utilizadores usam os servi\u00e7os. Sabendo-se que apenas uma pequena percentagem de utilizadores tem a persist\u00eancia e vontade necess\u00e1rias para adicionar de forma expl\u00edcita valor \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os que utiliza, cabe \u00e0s empresas Web 2.0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>set inclusive defaults for aggregating user data and building value as a side-effect of ordinary use of the application. (op. cit.)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os blogues, como tamb\u00e9m a Wikip\u00e9dia (e outros servi\u00e7os, dir\u00edamos) mobilizam essa intelig\u00eancia colectiva como uma esp\u00e9cie de filtro, configurando aquilo que James Surowiecki designou como the wisdom of crowds (referido por O\u2019Reilly, 30-09-2005), conceito que analisaremos com mais detalhe mais \u00e0 frente. Atrav\u00e9s destes dispositivos de publica\u00e7\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o (blogues, wikis, user-powered sites, como o Digg), do bookmarking social (Delicious, Diigo, etc.), da partilha de imagens e v\u00eddeos (Flickr, Youtube), assistimos a um fluxo ininterrupto de informa\u00e7\u00e3o que circula na rede, de pessoas para pessoas, de qualidade desigual, mas que, dada a dimens\u00e3o do fen\u00f3meno e dos n\u00fameros envolvidos, resulta num ganho de conhecimento dispon\u00edvel e partilh\u00e1vel por todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num relat\u00f3rio produzido no \u00e2mbito do JISC (Joint Information Systems Committee, Reino Unido), datado de Fevereiro de 2007 e intitulado What is Web 2.0? Ideas, technologies and implications for education, Paul Anderson identifica seis grandes ideias que suportam o conceito de Web 2.0, e que n\u00e3o se afastam muito da vis\u00e3o avan\u00e7ada por O\u2019Reilly:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. A produ\u00e7\u00e3o individual e os conte\u00fados produzidos pelos utilizadores (Individual production and User Generated Content)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta ideia agrega, por um lado, a no\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o pessoal e auto-express\u00e3o, potenciadas pela facilidade de acesso oferecida pelas novas tecnologias aliadas \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cEu tamb\u00e9m consigo fazer isso\u201d (em termos sociol\u00f3gicos e culturais, uma esp\u00e9cie de neo-punk) e, por outro, uma faceta mais ligada \u00e0 cidadania e \u00e0 interven\u00e7\u00e3o na sociedade, que j\u00e1 referimos, na forma do citizen journalism.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2. A mobiliza\u00e7\u00e3o do poder da multid\u00e3o (Harness the power of the crowd)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Paul Anderson (2007), a quest\u00e3o aqui \u00e9 tentar determinar de que forma interpretamos termos como \u201cintelig\u00eancia\u201d na express\u00e3o \u201cintelig\u00eancia colectiva\u201d e de que modo isso se relaciona com a no\u00e7\u00e3o de \u201cinforma\u00e7\u00e3o\u201d. O pr\u00f3prio conceito de Wisdom of Crowds (sabedoria das multid\u00f5es) avan\u00e7ado por Surowiecki, na obra com o mesmo nome, \u00e9 tamb\u00e9m ele inst\u00e1vel e pass\u00edvel de diversas interpreta\u00e7\u00f5es, algumas delas err\u00f3neas (cf. Anderson, 2007). Esta no\u00e7\u00e3o de \u201csabedoria das multid\u00f5es\u201d n\u00e3o se refere a uma massa an\u00f3nima agindo concertadamente e com objectivos comuns, mas antes a indiv\u00edduos desenvolvendo as suas ac\u00e7\u00f5es de forma independente que, no seu conjunto, produzem resultados superiores, em determinadas circunst\u00e2ncias, aos que um \u00fanico individuo poderia obter. No mesmo sentido devem ser vistas as folksonomies, neologismo derivado de taxonomy e que designa, na defini\u00e7\u00e3o de Thomas Vander Wal,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>the result of personal free tagging of information and objects (anything with a URL) for one&#8217;s own retrieval. The tagging is done in a social environment (shared and open to others). The act of tagging is done by the person consuming the information. (citado por Anderson, 2007: 17)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de uma ac\u00e7\u00e3o individual, n\u00e3o de um esfor\u00e7o colaborativo, destinada a facilitar a organiza\u00e7\u00e3o e processamento de informa\u00e7\u00e3o por parte de um utilizador, nos seus pr\u00f3prios termos (i.e. usando o seu pr\u00f3prio vocabul\u00e1rio). Contudo, pelo facto de ser partilhada no espa\u00e7o p\u00fablico, permite que grupos de utilizadores com um vocabul\u00e1rio similar funcionem como uma esp\u00e9cie de \u201cfiltros humanos\u201d (Anderson, 2007). Um outro aspecto importante no que toca \u00e0 folksonomy \u00e9 que as tags (etiquetas ou palavras-chave) est\u00e3o constantemente a ser geradas, pelo que se torna poss\u00edvel detectar tend\u00eancias de interesse emergentes. A possibilidade de identificar informa\u00e7\u00e3o contextual quando as tags s\u00e3o agregadas deriva do elevado n\u00famero de pessoas que as produzem e utilizam (Owen et al., 2006; referidos por Anderson, 2007), o que configura um cen\u00e1rio t\u00edpico da \u201csabedoria das multid\u00f5es\u201d (wisdom of crowds) (Anderson, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3. Dados em grande escala (Data on an epic scale)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos factores basilares na Web 2.0 \u00e9 a capacidade das empresas e servi\u00e7os coligirem e gerirem a imensa massa de dados dispon\u00edveis, que cresce incrementalmente, transformando-a num fluxo cont\u00ednuo que pode ser, depois, utilizado de modo eficiente pelas pessoas. J\u00e1 no seu artigo fundador de 2005, O\u2019Reilly afirma que o valor do software \u201cis proportional to the scale and dynamism of the data it helps to manage\u201d (30-09-2005: 1). A maior parte destes dados s\u00e3o uma esp\u00e9cie de efeito secund\u00e1rio resultante da utiliza\u00e7\u00e3o normal dos v\u00e1rios servi\u00e7os dispon\u00edveis na Internet (Google, Amazon, eBay, etc.), que recolhem e agregam os h\u00e1bitos e perfis de utilizadores para depois constru\u00edrem uma arquitectura de dados que permita desenvolver servi\u00e7os mais personalizados e optimizar outros aspectos, como a publicidade, por exemplo (Anderson, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caracter\u00edstico destes servi\u00e7os \u00e9 o facto de aprenderem sempre que s\u00e3o usados e serem tanto melhores quanto mais pessoas os utilizarem: este \u00e9 um dos cen\u00e1rios em que a j\u00e1 referida \u201csabedoria das multid\u00f5es\u201d (wisdom of crowds) parece emergir (O\u2019Reilly, 30-09-2005; Anderson, 2007). Se, por um lado, este trabalho sobre os dados torna a vida de todos mais f\u00e1cil no ciberespa\u00e7o, ele levanta, por outro, preocupa\u00e7\u00f5es quanto a quest\u00f5es de privacidade, propriedade da informa\u00e7\u00e3o recolhida e usos potencialmente perversos para que pode ser utilizada (Anderson, 2007). Ainda, dada a relev\u00e2ncia destes dados para o desenvolvimento e sucesso das empresas Web 2.0, h\u00e1 uma tend\u00eancia natural para estas usarem standards propriet\u00e1rios que tornam dif\u00edcil ou mesmo imposs\u00edvel aos utilizadores ou aos programadores migrar estes dados para outros servi\u00e7os. Como refere O\u2019Reilly,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>the race is on to own certain classes of core data: location, identity, calendaring of public events, product identifiers and namespaces. (30-09-2005: 3)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, parece haver actualmente uma tend\u00eancia para a utiliza\u00e7\u00e3o de APIs (Application Programming Interfaces) abertas e para solu\u00e7\u00f5es que permitem a interoperabilidade e a exporta\u00e7\u00e3o\/importa\u00e7\u00e3o de dados entre servi\u00e7os. Um dos elementos emergentes de maior import\u00e2ncia \u00e9 a OpenId, que permite \u00e0s pessoas usar o mesmo nome de utilizador e a mesma palavra-passe em todos os servi\u00e7os que suportem esta norma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4. Arquitectura de participa\u00e7\u00e3o (Architecture of Participation)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Duas ideias fundamentais neste conceito s\u00e3o, naturalmente, a colabora\u00e7\u00e3o entre as pessoas na Web e os conte\u00fados produzidos pelos utilizadores. Mas t\u00e3o importante como isso \u00e9 o facto de os servi\u00e7os serem desenhados para facilitar e potenciar a utiliza\u00e7\u00e3o em massa pelas pessoas. Isto \u00e9, a sua arquitectura \u00e9 pensada para poder aproveitar ao m\u00e1ximo o input dos utilizadores e tornam-se melhores \u00e0 medida que essa utiliza\u00e7\u00e3o aumenta, sobretudo atrav\u00e9s da facilidade de uso e da disponibiliza\u00e7\u00e3o de ferramentas muito funcionais, baixando consideravelmente as barreiras que podem obstar \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o da tecnologia. A busca do Google ou o BitTorrent (protocolo de partilha de ficheiros peer-to-peer) s\u00e3o exemplos claros de servi\u00e7os deste tipo (Anderson, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5. Efeitos da rede, leis de pot\u00eancia e a \u201cCauda Longa\u201d (Network effects, power laws and the Long Tail)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito de \u201cefeito de rede\u201d (network effect) aplica-se mais comummente a redes de telecomunica\u00e7\u00f5es (embora n\u00e3o exclusivamente), e designa o aumento de valor de um servi\u00e7o em que existe alguma forma de interac\u00e7\u00e3o com outros \u00e0 medida que mais pessoas o utilizam (Anderson, 2007). Aplicado \u00e0 realidade da Web, torna-se \u00f3bvio que o valor de muitos servi\u00e7os, nomeadamente daqueles que assentam em tecnologias de software social, como o MySpace, o Facebook, o Delicious ou o Twitter, por exemplo, est\u00e1 intimamente ligado ao n\u00famero de utilizadores que t\u00eam. \u00c0 medida que este \u201cefeito de rede\u201d aumenta e as pessoas percepcionam uma maior popularidade num determinado servi\u00e7o, \u00e9 frequente que este exiba uma crescimento exponencial e ganhe muito rapidamente preponder\u00e2ncia em termos do mercado (Anderson, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este \u201cefeito de rede\u201d presente na Internet, suportada numa rede f\u00edsica de telecomunica\u00e7\u00f5es, \u00e9 ampliado e potenciado pela natureza org\u00e2nica e relacional (hipertextual) da Web. O conte\u00fado contribu\u00eddo pelos utilizadores, as novas liga\u00e7\u00f5es constantemente criadas ou o recurso a servi\u00e7os que agregam dados intensifica e aprofunda este mesmo efeito. O aperfei\u00e7oamento constante dos servi\u00e7os e aplica\u00e7\u00f5es Web 2.0 \u00e9 alimentado por este efeito de rede, integrando a j\u00e1 referida arquitectura de participa\u00e7\u00e3o (Anderson, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, o \u201cefeito de rede\u201d n\u00e3o tem uma distribui\u00e7\u00e3o equitativa e regular por todos os utilizadores, ou seja, o \u201cvalor\u201d adicionado varia de pessoa para pessoa, consoante o uso que dele \u00e9 feito. Algumas p\u00e1ginas s\u00e3o mais relevantes do que outras para n\u00f3s, e da\u00ed estarem nos nossos \u201cfavoritos\u201d, e nem todos os nossos contactos de email t\u00eam a mesma relev\u00e2ncia, por exemplo. Este valor relativo \u00e9, assim, ditado por uma distribui\u00e7\u00e3o baseada numa \u201clei de pot\u00eancia\u201d (power law). Essa distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 representada por uma linha continuamente decrescente e \u00e9 caracterizada por<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>a very small number of very high-yield events (like the number of words that have an enormously high probability of appearing in a randomly chosen sentence, like &#8216;the&#8217; or &#8216;to&#8217;) and a very large number of events that have a very low probability of appearing (like the probability that the word &#8216;probability&#8217; or &#8216;blogosphere&#8217; will appear in a randomly chosen sentence) (Benkler, 2006, citado por Anderson, 2007: 22<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este tipo de distribui\u00e7\u00e3o evidencia uma \u201ccauda\u201d muito longa, dado que a amplitude de uma \u201clei de pot\u00eancia\u201d, \u00e0 medida que se estende em direc\u00e7\u00e3o ao infinito, se aproxima do valor zero mas nunca chega a atingi-lo (Anderson, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o \u201cLong Tail&#8221; [2] foi primeiro usada por Chris Anderson, da revista online Wired, no artigo assim intitulado, e que tinha como lead<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Forget squeezing millions from a few megahits at the top of the charts. The future of entertainment is in the mil<\/em>lions of niche markets at the shallow end of the bitstream. (Chris Anderson, 2004)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nele, Chris Anderson avan\u00e7a a ideia de que os produtos com pouca procura ou com volumes de venda baixos (que se encontram na \u201clong tail\u201d) podem, em conjunto, chegar a uma quota de mercado que iguala ou supera a de um n\u00famero restrito de produtos que sejam campe\u00f5es de vendas, desde que a rede de distribui\u00e7\u00e3o tenha a dimens\u00e3o suficiente e que n\u00e3o haja, tamb\u00e9m, barreiras artificiais que impe\u00e7am as pessoas de adquirir os produtos no extremo mais distante da \u201ccauda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"458\" height=\"266\" data-attachment-id=\"198\" data-permalink=\"https:\/\/josemota.pt\/aprendernarede\/parte1\/capitulo1\/1-2-a-cultura-participatoria-e-a-read-write-web\/the_long_tail\/\" data-orig-file=\"https:\/\/josemota.pt\/aprendernarede\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/the_long_tail.png\" data-orig-size=\"458,266\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"the_long_tail\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/josemota.pt\/aprendernarede\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/the_long_tail.png\" src=\"https:\/\/josemota.pt\/aprendernarede\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/the_long_tail.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-198\" srcset=\"https:\/\/josemota.pt\/aprendernarede\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/the_long_tail.png 458w, https:\/\/josemota.pt\/aprendernarede\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/the_long_tail-300x174.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>The Long Tail. Paul Anderson (2007: 23).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Chris Anderson (2007), estamos a evoluir para uma cultura e uma economia em que os muitos milh\u00f5es de pessoas que constituem estes nichos na \u201ccauda\u201d t\u00eam, de facto, import\u00e2ncia. Um dos elementos que alimenta os nichos especializados, a personaliza\u00e7\u00e3o e a fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9, precisamente, a facilidade com que as novas ferramentas e tecnologias permitem a passagem de uma massa passiva de consumidores a uma multid\u00e3o activa de indiv\u00edduos produtores de conte\u00fados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6. Abertura (Openness)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta \u00e9 a \u00faltima das seis grandes ideias que, para Paul Anderson (2007), suportam o conceito de Web 2.0. Segundo o autor, apesar das muitas leis e regulamenta\u00e7\u00f5es em torno do controlo, acesso e direitos relativos aos conte\u00fados digitais, existe na Web uma longa tradi\u00e7\u00e3o de trabalhar de forma aberta, que se manifesta, tamb\u00e9m, como uma for\u00e7a poderosa na Web2.0: os open standards, o software open source, a utiliza\u00e7\u00e3o livre de dados e a sua reutiliza\u00e7\u00e3o, o trabalhar num esp\u00edrito de inova\u00e7\u00e3o aberto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de outros, tudo isto tem sido importante no seu desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naturalmente que essa tradi\u00e7\u00e3o levanta v\u00e1rios problemas para os quais \u00e9 necess\u00e1rio encontrar respostas. H\u00e1 uma quantidade incomensur\u00e1vel de informa\u00e7\u00e3o armazenada na Web, mas dadas as diferentes formas como as empresas e servi\u00e7os procedem \u00e0 sua recolha e agrega\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio promover standards abertos que permitam, por um lado, a sua transfer\u00eancia (data exchange) e, por outro, a sua consulta e utiliza\u00e7\u00e3o de modo simples e eficaz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, as quest\u00f5es do copyright e da propriedade intelectual t\u00eam que ser devidamente ponderadas neste contexto de abertura e de partilha de conhecimento e de informa\u00e7\u00e3o. Se muitos utilizadores distribu\u00eddos ao \u201clongo da cauda\u201d, por diversas raz\u00f5es e motiva\u00e7\u00f5es, prescindem com facilidade de parte ou da totalidade desses direitos, j\u00e1 noutras situa\u00e7\u00f5es, quando estes representam a base de uma actividade ou de uma reputa\u00e7\u00e3o profissional (escritores, m\u00fasicos, acad\u00e9micos), esta problem\u00e1tica coloca-se com particular acuidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tend\u00eancia parece ser, apesar de tudo, para uma abertura e partilha cada vez maior de conhecimento cient\u00edfico e de informa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o casos paradigm\u00e1ticos as v\u00e1rias iniciativas ligadas aos conte\u00fados educacionais abertos (open content), objectos de aprendizagem (learning objects), recursos educativos abertos (open educational resources) e cursos abertos (open courseware); as revistas cientificas de acesso livre [3] e o Public Knowledge Project [4], que disponibiliza, entre outros servi\u00e7os, software de suporte \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de revistas cient\u00edficas e acad\u00e9micas ou \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de confer\u00eancias de acesso livre; ou o projecto Creative Commons [5],cujas licen\u00e7as permitem uma grande amplitude e flexibilidade relativamente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de uso que um autor pode definir relativamente \u00e0quilo que produziu, desde o copyright total \u2013 todos os direitos reservados \u2013 at\u00e9 ao dom\u00ednio p\u00fablico \u2013 sem quaisquer restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[1] Texto da 1\u00aa Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos da Am\u00e9rica:&nbsp;<i>Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances.<\/i><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[2] Traduzido por \u201cA Cauda Longa\u201d, aquando da publica\u00e7\u00e3o em Portugu\u00eas (2007) da obra que Chris Anderson veio a escrever mais tarde com o mesmo t\u00edtulo do artigo (2006).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[3] O&nbsp;<i>Directory of Open Access Journals<\/i>&nbsp;contava, no in\u00edcio de Dezembro de 2008, com 3766 publica\u00e7\u00f5es listadas, qualificadas como \u201cfree, full text, quality controlled scientific and scholarly journals\u201d, e uns impressionantes 239755 artigos, distribu\u00eddos por 17 \u00e1reas cient\u00edficas.&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.doaj.org\/\">http:\/\/www.doaj.org\/<\/a>, acedido em 015-12-2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[4] Da p\u00e1gina do projecto: \u201cThe Public Knowledge Project is a research and development initiative directed toward improving the scholarly and public quality of academic research through the development of innovative online publishing and knowledge-sharing environments\u201d.&nbsp;<a href=\"http:\/\/pkp.sfu.ca\/\">http:\/\/pkp.sfu.ca\/<\/a>, acedido em 15-12-2008. &nbsp; \u201cShare, Remix, Reuse \u2013 Legally\u201d \u00e9 o lema desta organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, cujo site pode ser encontrado em&nbsp;<a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/\">http:\/\/creativecommons.org\/<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[5] \u201cShare, Remix, Reuse \u2013 Legally\u201d \u00e9 o lema desta organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, cujo site pode ser encontrado em&nbsp;<a title=\"http:\/\/creativecommons.org\/\" href=\"http:\/\/creativecommons.org\/\">http:\/\/creativecommons.org\/<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anderson, Chris (2007).&nbsp;<em>A Cauda Longa<\/em>. Lisboa: Actual Editora. [Edi\u00e7\u00e3o original em Ingl\u00eas de 2006, pela Hyperion, EUA].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anderson, Chris (2004). The Long Tail.\u00a0<em>Wired Magazine<\/em>, Issue 12.10, Outubro. Dispon\u00edvel\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wired.com\/2004\/10\/tail\/\">http:\/\/www.wired.com\/wired\/archive\/12.10\/tail.html<\/a>\u00a0[acedido em 15-12-2008]. <a href=\"https:\/\/www.wired.com\/2004\/10\/tail\/\">Liga\u00e7\u00e3o atualizada 12-12-2025<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anderson, Paul (2007). What is Web 2.0: Ideas, technologies and implications for education.&nbsp;<em>JISC Technology and Standards Watch<\/em>. Dispon\u00edvel em&nbsp;<a title=\"http:\/\/www.jisc.ac.uk\/media\/documents\/techwatch\/tsw0701b.pdf\" href=\"http:\/\/www.jisc.ac.uk\/media\/documents\/techwatch\/tsw0701b.pdf\">http:\/\/www.jisc.ac.uk\/media\/documents\/techwatch\/tsw0701b.pdf<\/a>&nbsp;[acedido em 15-12-2008]. <a href=\"https:\/\/21stcenturywalton.pbworks.com\/f\/What+is+Web+2.0.pdf\">Liga\u00e7\u00e3o atualizada 12-12-2025<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bowman, Shayne &amp; Willis, Chris (2003). We Media: How Audiences are Shaping the Future of News and Information.&nbsp;<em>The Media Center at the American Press Institute<\/em>. Dispon\u00edvel em&nbsp;<a title=\"http:\/\/www.hypergene.net\/wemedia\/download\/we_media.pdf\" href=\"http:\/\/www.hypergene.net\/wemedia\/download\/we_media.pdf\">http:\/\/www.hypergene.net\/wemedia\/download\/we_media.pdf<\/a>&nbsp;[acedido em 15-12-2008]. <a href=\"https:\/\/ict4peace.org\/wp-content\/uploads\/2007\/05\/we_media.pdf\">Liga\u00e7\u00e3o atualizada 12-12-2025<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Locke, Christopher; Levine, Rick; Searls, Doc; Weinberger, David (1999).&nbsp;<em>The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual<\/em>. Dispon\u00edvel em&nbsp;<a title=\"http:\/\/www.cluetrain.com\/book\/index.html\" href=\"http:\/\/www.cluetrain.com\/book\/index.html\">http:\/\/www.cluetrain.com\/book\/index.html<\/a>&nbsp;[acedido em 15-12-2008].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O\u2019Reilly, Tim (30-09-2005). What Is Web 2.0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software.&nbsp;<i>O\u2019Reilly<\/i>. Dispon\u00edvel em&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.oreillynet.com\/pub\/a\/oreilly\/tim\/news\/2005\/09\/30\/what-is-web-20.html\">http:\/\/www.oreillynet.com\/pub\/a\/oreilly\/tim\/news\/2005\/09\/30\/what-is-web-20.html<\/a>[acedido em 15-12-2008].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rosen, Jay (27-06-2006). The People Formerly Known as the Audience.&nbsp;<em>Pressthink<\/em>. Dispon\u00edvel em&nbsp;<a title=\"http:\/\/journalism.nyu.edu\/pubzone\/weblogs\/pressthink\/2006\/06\/27\/ppl_frmr.html\" href=\"http:\/\/journalism.nyu.edu\/pubzone\/weblogs\/pressthink\/2006\/06\/27\/ppl_frmr.html\">http:\/\/journalism.nyu.edu\/pubzone\/weblogs\/pressthink\/2006\/06\/27\/ppl_frmr&#8230;<\/a>&nbsp;[acedido em 15-12-2008]. <a href=\"http:\/\/archive.pressthink.org\/2006\/06\/27\/ppl_frmr.html\">Liga\u00e7\u00e3o atualizada 12-12-2025<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este irromper das vozes individuais, m\u00faltiplas, na esfera p\u00fablica amplificada e distribu\u00edda que \u00e9 a web provocou ondas de choque que abalaram a pr\u00f3pria funda\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dia tradicionais, confrontados com a perda do poder que detinham sobre a produ\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o consumida pelo grande p\u00fablico. 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