{"id":13,"date":"2006-01-16T09:44:10","date_gmt":"2006-01-16T09:44:10","guid":{"rendered":"http:\/\/mpel2006.wordpress.com\/2006\/01\/16\/esr-paula-pinheiro-comentando-a-educacao-na-sociedade-em-rede-de-jose-ignacio-aguaded-gomez\/"},"modified":"2006-01-16T09:44:10","modified_gmt":"2006-01-16T09:44:10","slug":"esr-paula-pinheiro-comentando-a-educacao-na-sociedade-em-rede-de-jose-ignacio-aguaded-gomez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/2006\/01\/16\/esr-paula-pinheiro-comentando-a-educacao-na-sociedade-em-rede-de-jose-ignacio-aguaded-gomez\/","title":{"rendered":"ESR &#8211; Paula Pinheiro comentando \u201cA Educa\u00e7\u00e3o na Sociedade em Rede\u201d, de Jos\u00e9 Ign\u00e1cio Aguaded G\u00f3mez"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sabendo bem explicar porqu\u00ea, quando comecei a pensar nesta problem\u00e1tica que o professor nos coloca (sobre o texto\/sobre a sociedade em rede\/sobre a educa\u00e7\u00e3o), nas diversas interac\u00e7\u00f5es que os seus intervenientes estabelecem, fui lembrar-me de um livro, ou melhor, um pequeno texto de Raul Brand\u00e3o (O Senhor Cust\u00f3dio), o qual me fez pensar bastante nesta quest\u00e3o da postura do indiv\u00edduo perante o que nos rodeia (seja isto o mundo ou a Net, as estradas, os livros, as vias de comunica\u00e7\u00e3o, as tecnologias, o saber) e daquilo que podemos retirar de proveitoso do mundo para n\u00f3s e para os outros e, fundamentalmente, para as nossas vidas. E o texto versa assim: <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O Cust\u00f3dio era um negociante da nossa pra\u00e7a (Porto), que foi amigo de meu pai e que s\u00f3 conheci na velhice. Tipo baixo, trigueiro, de barba de passa-piolho, rico um dia, pobre no outro, e que parecia indiferente \u00e0 vida e ao dinheiro. Com isto extremamente bondoso. A nota caracter\u00edstica da sua vida seria esta: n\u00e3o era a fortuna que ele procurava no neg\u00f3cio \u2013 era a agita\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o parava nunca, nem quando tinha cem contos, nem quando estava completamente arruinado \u2013 porque a sua vida foi uma linha com altos e baixos repentinos que surpreendia e maravilhava toda a gente.<\/em><\/p>\n<p><em>E tamb\u00e9m n\u00e3o havia trambolh\u00e3o que o arrancasse a uma placidez que parecia indiferen\u00e7a. Tinha o seu escrit\u00f3rio, quando o conheci, na Pra\u00e7a de D. Pedro, mas a bem dizer o seu escrit\u00f3rio era o pa\u00eds inteiro, porque nunca se encontrava em casa.<\/em><\/p>\n<p><em>Ningu\u00e9m sabia dele, nem a fam\u00edlia nem os amigos. Sa\u00eda sem vint\u00e9m, com um par de meias no bolso e estava de volta, quando estava, passado um m\u00eas. Percorria a prov\u00edncia em neg\u00f3cios. J\u00e1 os condutores do comboio, que n\u00e3o pagava, lhe n\u00e3o pediam o bilhete. Era o Cust\u00f3dio. <\/em><\/p>\n<p><em>Viajava sempre em terceira classe, falando pouco e absorto n\u00e3o sei em que planos irrealiz\u00e1veis e absurdos. Todos os estalajadeiros lhe sabiam o nome e fiavam dele. \u2013 \u00c9 o senhor Cust\u00f3dio. \u2013 Todos os almocreves, todos os grandes e pequenos negociantes da prov\u00edncia e do Porto conheciam aquele homem honrado, que depois mandava pagar todas as suas contas.<\/em><\/p>\n<p><em>Duma vez n\u00e3o houve em casa not\u00edcias dele durante tr\u00eas meses inteiros.<\/em><\/p>\n<p><em>Foi uma afli\u00e7\u00e3o. Veio-se a saber mais tarde que tinha ido ao Brasil, com o mesmo par de meias na algibeira e a mesma soberana indiferen\u00e7a, para realizar uns neg\u00f3cios que s\u00f3 ele conhecia, e que no Rio de Janeiro, como em Portugal, encontrara amigos, considera\u00e7\u00e3o, simpatia: &#8211; Olhem quem ele \u00e9, o Cust\u00f3dio!&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Como era um homem de bem e um homem de cora\u00e7\u00e3o, acabou naturalmente pobre, o que n\u00e3o lhe deve ter pesado nada, porque, a bem dizer, o fim da sua vida n\u00e3o foi juntar dinheiro, mas correr mundo, planear empresas, discutir letras, assinar contratos, e sonhar, sobretudo sonhar.<\/em><\/p>\n<p><em>A bem dizer cuido que o Cust\u00f3dio foi um grande poeta.<\/em><\/p>\n<p>O problema que temos em m\u00e3os quando falamos de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 afinal uma quest\u00e3o: educar para qu\u00ea? Ou seja, precisamos de nos colocar uma quest\u00e3o primordial: que finalidade queremos ver cumprida com a educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Creio que podemos hoje pensar este boom das NTIC como h\u00e1 s\u00e9culos atr\u00e1s o surgimento de livros impressos \u2013 relativizado o impacto social que hoje todas as grandes mudan\u00e7as t\u00eam, pela rapidez de penetra\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o que globalmente conseguem.<\/p>\n<p>O texto A Educa\u00e7\u00e3o na Sociedade em Rede estabelece genericamente o confronto entre escola tradicional e novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o (mais concretamente as que se alicer\u00e7am na Internet).<\/p>\n<p>Conviria, primeiro, desmistificar o conceito de escola tradicional quando falamos deste conceito aplicado \u00e0 Escola que hoje temos no nosso pa\u00eds. \u00c9 frequente partir-se para esta defini\u00e7\u00e3o como se uma esp\u00e9cie de nevoeiro nos impedisse de ver tudo o que mudou desde a d\u00e9cada de sessenta, com as reformas de Veiga Sim\u00e3o, at\u00e9 \u00e0 actualidade, onde a catadupa de reformas n\u00e3o chega sequer a fazer escola.<\/p>\n<p>Se imaginarmos escola tradicional como a que temos hoje, parece-me que j\u00e1 n\u00e3o podemos falar de escola, mas antes de escolas, ou mesmo de uma escola que \u00e9 muitas escolas num mesmo corpo arquitect\u00f3nico, na medida em que j\u00e1 conseguimos encontrar contextos diversificados de escola para escola e at\u00e9 dentro de uma mesma escola.<\/p>\n<p>A ideia de que a escola tradicional se encontra presa a praxis que caracterizaram os processos de ensino antes das reformas de Veiga Sim\u00e3o \u00e9 uma ideia totalmente desfasada da realidade; e n\u00e3o \u00e9 esse, de facto, o problema da educa\u00e7\u00e3o hoje em Portugal. Ali\u00e1s, esta postura tem-nos sistematicamente impedido de ver mais fundo nos problemas do nosso sistema educativo.<\/p>\n<p>E assim, tal como temos encarado esta situa\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo t\u00e3o leve e pouco profissional, tamb\u00e9m tendemos a deixar-nos ofuscar com as novidades que v\u00e3o surgindo \u2013 entre as quais as NTIC s\u00e3o certamente as mais atractivas.<\/p>\n<p>Pretender-se que tudo ou quase tudo do que hoje se n\u00e3o consegue tirar da Escola se deve essencialmente a processos de comunica\u00e7\u00e3o alicer\u00e7ados numa cultura ensinante \u201corografa\u201d \u00e9 ignorar claramente o que se passa no terreno.<\/p>\n<p>Hoje, nas nossas escolas, n\u00e3o s\u00e3o os problemas de \u201censinaprendizagem\u201d que impedem o sucesso. Cada vez mais, e se quisermos encarar de forma s\u00e9ria esta quest\u00e3o, podemos encontrar respostas para o insucesso num problema maior e que respeita inteiramente a \u201cGest\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o\u201d. Mega gest\u00e3o e micro gest\u00e3o. Digamos que h\u00e1 que olhar para a Educa\u00e7\u00e3o com uma vis\u00e3o estrutural, radical (na verdadeira acep\u00e7\u00e3o da palavra) que nos leve a perceber que \u00e9 a rede de suporte b\u00e1sico que est\u00e1 desde h\u00e1 muito falhando e n\u00e3o os impulsos que nela v\u00e3o existindo.<\/p>\n<p>Evidentemente que \u00e9 mais f\u00e1cil (porque mais vis\u00edvel) perceber estes problemas atrav\u00e9s das suas consequ\u00eancias. Por\u00e9m, interessa analisar as causas, a origem do caos que neste sistema se instalou e que deteriora dia a dia as rela\u00e7\u00f5es entre todos os agentes que nele operam.<\/p>\n<p>Tratarmos das quest\u00f5es da Educa\u00e7\u00e3o em Rede \u2013 ou da Educa\u00e7\u00e3o na Sociedade em Rede \u2013 \u00e9 um exerc\u00edcio poss\u00edvel, mas n\u00e3o devemos confundir esta abordagem educativa com o o\u00e1sis no deserto que atravessamos.<\/p>\n<p>Podemos discutir aqui se a Escola n\u00e3o est\u00e1 a resultar porque a Sociedade est\u00e1 em crise, sem valores, com outros valores, ou com uma confus\u00e3o deles; ou porque a velocidade a que as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e cient\u00edficas se processam n\u00e3o permite uma equival\u00eancia de mudan\u00e7as sociais, econ\u00f3micas, pol\u00edticas e culturais; ou porque os meios e os contextos comunicativos da Escola est\u00e3o desfasados com os da Sociedade; ou porque&#8230; ou porque&#8230;<\/p>\n<p>Tenho para mim que a educa\u00e7\u00e3o em rede \u00e9, na ess\u00eancia, um conceito pouco inovador em Educa\u00e7\u00e3o (sempre houve necessidade de la\u00e7os e estrat\u00e9gias de interac\u00e7\u00e3o entre os intervenientes da educa\u00e7\u00e3o, com a velocidade e a multiplicidade que os contextos comunicacionais possibilitavam).<\/p>\n<p>Aquilo que os meios de comunica\u00e7\u00e3o hoje nos permitem \u00e9 sobretudo velocidade e facilidade de acesso (o processo torna-se dom\u00e9stico); mas, tamb\u00e9m uma auto-estrada significa relativamente o mesmo se comparada a uma rota seguida por navegadores do s\u00e9culo XV ou XVI.<\/p>\n<p>Pretendermos que porque chegamos mais r\u00e1pido, e muitos mais, isso nos vai levar a um melhor destino \u00e9 um equ\u00edvoco que me parece dispens\u00e1vel. Continuo a entender que conviria perceber primeiro onde queremos chegar.<\/p>\n<p>Porque nem sempre o nosso destino precisa de grandes dist\u00e2ncias ou de ve\u00edculos especiais.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesta nuance que a Educa\u00e7\u00e3o se deve jogar: onde\/como queremos ir?<\/p>\n<p>O Senhor Cust\u00f3dio percorreu mundo, dentro e fora de si, e era feliz com os destinos que escolhia&#8230;<\/p>\n<p>\u201c&gt;)<br \/>\n\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sabendo bem explicar porqu\u00ea, quando comecei a pensar nesta problem\u00e1tica que o professor nos coloca (sobre o texto\/sobre a sociedade em rede\/sobre a educa\u00e7\u00e3o), nas diversas interac\u00e7\u00f5es que os seus intervenientes estabelecem, fui lembrar-me de um livro, ou melhor,&hellip; <a href=\"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/2006\/01\/16\/esr-paula-pinheiro-comentando-a-educacao-na-sociedade-em-rede-de-jose-ignacio-aguaded-gomez\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-13","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-instantaneos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}