{"id":18,"date":"2006-02-11T12:05:33","date_gmt":"2006-02-11T12:05:33","guid":{"rendered":"http:\/\/mpel2006.wordpress.com\/2006\/02\/11\/o-fenomeno-da-cibercultura-comentario\/"},"modified":"2006-02-11T12:05:33","modified_gmt":"2006-02-11T12:05:33","slug":"o-fenomeno-da-cibercultura-comentario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/2006\/02\/11\/o-fenomeno-da-cibercultura-comentario\/","title":{"rendered":"O Fen\u00f3meno da Cibercultura &#8211; Coment\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><em>Os sistemas tecnol\u00f3gicos produzem-se socialmente e a produ\u00e7\u00e3o social \u00e9 determinada pela cultura<span> <\/span><\/em><\/p>\n<p><span>Esta afirma\u00e7\u00e3o de Castells, que este usa como ponto de partida para dizer que \u201ca cultura da Internet \u00e9 a cultura dos criadores da Internet\u201d, \u00e9 da maior import\u00e2ncia, porque p\u00f5e em causa a perspectiva mais ou menos disseminada entre muitas das vozes que reflectem sobre o impacto e o papel das (novas) tecnologias na sociedade e nos indiv\u00edduos. De facto, ao contr\u00e1rio da cren\u00e7a de que s\u00e3o os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que v\u00e3o moldando a sociedade e as formas de viver e comunicar, podemos, a partir desta ideia, perspectivar o processo de um outro \u00e2ngulo: s\u00e3o as din\u00e2micas culturais e os processos de transforma\u00e7\u00e3o social que favorecem ou potenciam o desenvolvimento tecnol\u00f3gico, condicionando-o ou moldando-o como resposta a necessidades n\u00e3o preenchidas e que, atrav\u00e9s dele, encontram formas operacionais de se exprimir e realizar.<!--more--><\/span><\/p>\n<p><span \/><span>Este deslocamento do olhar sobre as tecnologias como o motor das transforma\u00e7\u00f5es para os processos culturais e sociais que est\u00e3o na base do desenvolvimento tecnol\u00f3gico ajuda desde logo a explicar, por exemplo, a hist\u00f3ria (j\u00e1 relativamente longa) do insucesso da introdu\u00e7\u00e3o dos computadores nas escolas, ou os enganos e mal-entendidos em que se t\u00eam arrastado boa parte das experi\u00eancias na \u00e1rea do ensino online ou do e-learning. <\/span><\/p>\n<p><span>Sem as convuls\u00f5es registadas nos anos 60 nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, que passaram muito pela desvincula\u00e7\u00e3o de uma elite universit\u00e1ria face a um modelo de sociedade em que n\u00e3o se reviam e que queriam mudar profundamente, jamais ter\u00edamos tido a Internet como a conhecemos hoje (a Universidade de Berkeley, por exemplo, centro do \u201cFree Speech Movement\u201d e da contesta\u00e7\u00e3o aos poderes institu\u00eddos nos anos 60, emerge na d\u00e9cada seguinte como um dos principais p\u00f3los de desenvolvimento tecnol\u00f3gico que est\u00e1 na base da Internet). A expans\u00e3o e a valoriza\u00e7\u00e3o do conceito de liberdade individual, a descoberta do conhecimento enquanto valor econ\u00f3mico primordial, a resist\u00eancia \u00e0 autoridade e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o \u201cvertical\u201d, privilegiando-se uma organiza\u00e7\u00e3o \u201chorizontal\u201d de partilha, coopera\u00e7\u00e3o e co-responsabilidade s\u00e3o alguns dos aspectos que resultaram desse processo e que se encontram embebidos na pr\u00f3pria natureza da Internet. Conceitos em voga nos anos 70 e 80, quando a Internet dava os primeiros passos e se desenvolvia, como \u201csmall is beautiful\u201d, \u201cthink globally, act locally\u201d ou a \u201cgrassroots economy\u201d centravam-se precisamente na ideia de redes de partilha (de poder, de compet\u00eancias e de conhecimentos), coopera\u00e7\u00e3o e entreajuda, que constitui um dos pilares do <em>open source<\/em> e do <em>software<\/em> livre. <\/span><\/p>\n<p><span>Muitos destes aspectos est\u00e3o presentes em tr\u00eas dos quatro estratos culturais que, segundo Castells, produziram e moldaram a Internet: a cultura tecnomeritocr\u00e1tica, que promove o desenvolvimento tecnol\u00f3gico segundo um modelo acad\u00e9mico &#8211; investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica partilhada, reputa\u00e7\u00e3o e reconhecimento obtidos mediante a qualidade e a operacionalidade do trabalho produzido, a avalia\u00e7\u00e3o pelos pares e a publicita\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o realizada e do conhecimento constru\u00eddo; a cultura hacker, constitu\u00edda por <em>wiz kids<\/em> que privilegiam sobretudo a liberdade, a coopera\u00e7\u00e3o, a reciprocidade e a informalidade, livres de constrangimentos institucionais e\/ou corporativos e que encontram na rede e na virtualidade o seu habitat natural; e as comunidades online, que deram conte\u00fado e express\u00e3o social ao uso da tecnologia, trazendo para a rede a vida social e usando-a para expandir as formas de interac\u00e7\u00e3o, coopera\u00e7\u00e3o e entreajuda. <\/span><\/p>\n<p><span>Ironicamente, a Internet como meio privilegiado de comunica\u00e7\u00e3o e acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o que conhecemos hoje, massificada e largamente disseminada, n\u00e3o teria sido poss\u00edvel sem um quarto estrato cultural: o dos empres\u00e1rios capitalistas. Largamente alheios aos altos e nobres princ\u00edpios e valores dos restantes estratos, interessados apenas em fazer dinheiro, o mais poss\u00edvel, foram no entanto eles que emprestaram ao conhecimento dispon\u00edvel o investimento necess\u00e1rio para a sua concretiza\u00e7\u00e3o a larga escala. <\/span><\/p>\n<p><span>Hoje, o espa\u00e7o privilegiado onde se desenvolve a cultura digital \u2013 a Internet \u2013 \u00e9 ainda um contexto muito heterog\u00e9neo, onde novas formas muito eficientes de comunicar e de armazenar, processar e distribuir informa\u00e7\u00e3o coexistem com formas muito an\u00e1rquicas e de baixo valor informativo e comunicativo. Por outro lado, a diversidade de pr\u00e1ticas e experi\u00eancias que resultam de uma grande variedade de subculturas e redes de interesses fazem da cultura digital um conceito complexo e multifacetado. <\/span><\/p>\n<p><span>Num certo sentido, se podemos j\u00e1 falar de cultura digital, ela pode ser vista como um est\u00e1dio que exprime ou refor\u00e7a muitas das caracter\u00edsticas presentes na sociedade p\u00f3s-moderna: a problematiza\u00e7\u00e3o da identidade; as quest\u00f5es ligadas \u00e0 autentica\u00e7\u00e3o do discurso; o esbater das barreiras entre produtor e receptor; a fragmentaridade e a relativiza\u00e7\u00e3o do conhecimento; o esbatimento da no\u00e7\u00e3o de verdade em favor das no\u00e7\u00f5es de funcionalidade e operacionalidade; a preponder\u00e2ncia da linguagem como forma de interpretar o mundo (e o que da\u00ed resulta, dada a natureza amb\u00edgua da linguagem, mas tamb\u00e9m a sua tend\u00eancia para se instituir como poder); os efeitos de colagem e sobreposi\u00e7\u00e3o; ou uma certa resist\u00eancia \u201cintuitiva\u201d ao poder e \u00e0 autoridade, em favor da partilha e da coopera\u00e7\u00e3o (ainda, do vertical ao horizontal). <\/span><\/p>\n<p><span>A cultura digital parece incorporar muitos dos elementos constitutivos da natureza da Internet,\u00a0 assumindo, com frequ\u00eancia, um car\u00e1cter de contra-cultura e de contra-poder(es), um espa\u00e7o de liberdade ainda n\u00e3o submetido \u00e0s l\u00f3gicas de mercado, do controlo da opini\u00e3o ou dos media, descentralizado e \u201cdeslocalizado\u201d. Da\u00ed ser interessante a refer\u00eancia que Slevin faz \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cesfera p\u00fablica\u201d de Habermas, definida como \u201ca forum, constituted by a community of individuals, coming together as equals, capable of producing and reproducing a public opinion through critical discussion, argument and reasoned debate\u201d. E n\u00e3o sendo s\u00f3 isto, a cultura digital pode ser tamb\u00e9m isto, expresso na imensid\u00e3o de blogues orientados para a discuss\u00e3o p\u00fablica dos mais variados temas, incluindo a questiona\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o veiculada nos media dominantes, como a televis\u00e3o, a r\u00e1dio ou os jornais, ou os f\u00f3runs de discuss\u00e3o onde milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo se envolvem em verdadeiras redes de debate e de partilha de informa\u00e7\u00e3o e de conhecimento. <\/span><\/p>\n<p><span>Em suma, eu diria que a cultura digital \u00e9 ainda um conceito inst\u00e1vel e em progresso, mas que me parece construir-se na conflu\u00eancia das caracter\u00edsticas j\u00e1 referidas relativas \u00e0 g\u00e9nese e desenvolvimento da Internet e das problem\u00e1ticas centrais na cultura p\u00f3s-moderna, que encontra no contexto das redes digitais uma ecologia prop\u00edcia \u00e0 sua natureza e forma(s) de ser. Resta saber se, tal como a \u201cesfera p\u00fablica\u201d de Habermas, a cultura digital vai acabar por ser dominada pelos interesses comerciais e pela interven\u00e7\u00e3o dos estados, sempre \u00e1vidos de controlar o(s) discurso(s) p\u00fablico(s) ou se, pelo contr\u00e1rio, vai conseguir preservar as caracter\u00edsticas que herdou dos processos sociais e das din\u00e2micas culturais que lhe deram origem. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sistemas tecnol\u00f3gicos produzem-se socialmente e a produ\u00e7\u00e3o social \u00e9 determinada pela cultura Esta afirma\u00e7\u00e3o de Castells, que este usa como ponto de partida para dizer que \u201ca cultura da Internet \u00e9 a cultura dos criadores da Internet\u201d, \u00e9 da&hellip; <a href=\"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/2006\/02\/11\/o-fenomeno-da-cibercultura-comentario\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-18","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-e-sociedade-em-rede"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}