{"id":37,"date":"2006-10-11T17:04:45","date_gmt":"2006-10-11T17:04:45","guid":{"rendered":"http:\/\/mpel2006.wordpress.com\/2006\/10\/11\/e-necessario-um-upgrade-de-algum-discurso-pedagogico\/"},"modified":"2006-10-11T17:04:45","modified_gmt":"2006-10-11T17:04:45","slug":"e-necessario-um-upgrade-de-algum-discurso-pedagogico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/2006\/10\/11\/e-necessario-um-upgrade-de-algum-discurso-pedagogico\/","title":{"rendered":"\u00c9 necess\u00e1rio um upgrade de algum discurso pedag\u00f3gico"},"content":{"rendered":"<p>A\u00a0parte do artigo de Jorge Pinto que se refere \u00e0 actua\u00e7\u00e3o do professor e \u00e0s formas de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela que me levanta mais d\u00favidas e inquieta\u00e7\u00f5es, porque a sinto como muito program\u00e1tica e reducionista, e vou tentar explicar porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o que op\u00f5e ensino e aprendizagem como dois p\u00f3los que se contradizem, criando uma esp\u00e9cie de contentores pedag\u00f3gicos a que corresponderiam tipos de avalia\u00e7\u00e3o espec\u00edficos, n\u00e3o s\u00f3 descreve mal a realidade como assenta em perspectivas muito redutoras e simplistas do que \u00e9 ensinar e aprender, do que \u00e9 passividade ou actividade cognitiva e emocional. Penso que seria muito \u00fatil compreendermos que\u00a0v\u00e1rias destas no\u00e7\u00f5es est\u00e3o datadas e que transportam consigo o lastro do contexto cultural e social em que emergiram e se desenvolveram, muitas vezes como reac\u00e7\u00e3o face a modelos considerados inadequados. E, por isso, talvez seja altura de revisitar algumas destas perspectivas e actualiz\u00e1-las face \u00e0(s) realidade(s) do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>&#8220;Ensinar&#8221; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 transmitir informa\u00e7\u00e3o de forma organizada e estruturada. Uma parte importante de ensinar tamb\u00e9m \u00e9 modelar comportamentos, atitudes e abordagens (emocionais e cognitivas), formas de obter e lidar com a informa\u00e7\u00e3o, de resolver problemas ou de formular quest\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Ensinar&#8221; no sentido restrito de transmitir informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem, em si mesmo, nada de errado, <strong>a n\u00e3o ser que seja a \u00fanica estrat\u00e9gia utilizada<\/strong>. Livros, filmes, palestras, CD-ROMs, etc., s\u00e3o formas de transmitir informa\u00e7\u00e3o estruturada que s\u00e3o \u00fateis e altamente recomend\u00e1veis. Quando &#8220;ensina&#8221; assim, o professor n\u00e3o faz mais do que funcionar como um recurso adicional a juntar aos mencionados, com a vantagem de ser interactivo (os alunos podem fazer perguntas e pedir esclarecimentos), coisa que alguns recursos n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia de que\u00a0o aluno \u00e9 passivo quando assiste a uma prelec\u00e7\u00e3o\/momento expositivo\/ensino no sentido restrito \u00e9 altamente question\u00e1vel. Bem pelo contr\u00e1rio, o aluno at\u00e9 pode estar altamente activo, quer do ponto de vista intelectual quer emocional, processando a informa\u00e7\u00e3o e fazendo com ela todas aquelas opera\u00e7\u00f5es que\u00a0a transformam em conhecimento (contrastando com o que j\u00e1 sabe,\u00a0formulando hip\u00f3teses sobre o que vir\u00e1 a seguir e confirmando ou infirmando essas hip\u00f3teses, redesenhando o seu saber para integrar a nova informa\u00e7\u00e3o, etc.).\u00a0<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que um professor desempenha tipicamente uma s\u00e9rie de pap\u00e9is diversos ao longo do processo, \u00e0s vezes at\u00e9 na mesma sess\u00e3o\/aula, e tem que se preocupar simultaneamente com as tr\u00eas \u00e1reas referidas &#8211; o ensino e a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos; o aprofundamento da sua rela\u00e7\u00e3o com os alunos e o\u00a0conhecimento\u00a0das suas\u00a0caracter\u00edsticas individuais;\u00a0e o\u00a0desenvolvimento da autonomia e da independ\u00eancia dos alunos\u00a0como aprendentes e como indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Da mesma forma, as estrat\u00e9gias, modos e instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o variados, de acordo com as diversas fases de trabalho e com os objectivos e fun\u00e7\u00e3o dessa avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria forma como s\u00e3o definidos os v\u00e1rios tipos de avalia\u00e7\u00e3o &#8211; sumativa, formativa e formadora &#8211;\u00a0a correspond\u00eancia estabelecida e a designa\u00e7\u00e3o de um elemento &#8220;passivo&#8221; em cada um dos tipos (aluno, saber, professor) s\u00e3o altamente question\u00e1veis e, em meu entender, pouco interessantes. As\u00a0defini\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas para a avalia\u00e7\u00e3o sumativa e a avalia\u00e7\u00e3o formativa n\u00e3o correspondem sequer \u00e0s no\u00e7\u00f5es geralmente atribu\u00eddas a estes conceitos na literatura sobre avalia\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o me parecem suficientemente fundamentadas.<\/p>\n<p>Em meu entender, as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o lineares &#8211;\u00a0a combina\u00e7\u00e3o das\u00a0caracter\u00edsticas dos instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o e objectivos\u00a0com que s\u00e3o utilizados podem produzir situa\u00e7\u00f5es mistas: a informa\u00e7\u00e3o recolhida a partir dos resultados (dados de avalia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o classifica\u00e7\u00f5es) de um teste sumativo pode ser utilizada com uma finalidade formativa, revisitando os aspectos mais cr\u00edticos e utilizando outras estrat\u00e9gias para promover determinadas aprendizagens de forma mais eficiente; o somat\u00f3rio da informa\u00e7\u00e3o resultante\u00a0dos dados recolhidos ao longo do processo numa avalia\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter sobretudo formativo pode permitir a tomada de decis\u00f5es fundamentada relativamente\u00a0\u00e0 classifica\u00e7\u00e3o dos alunos, \u00e0 sua progress\u00e3o ou outras (o que \u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o cont\u00ednua sen\u00e3o isso?).<\/p>\n<p>Depois, h\u00e1 ainda a quest\u00e3o do aprender a aprender, dos processos de auto-avalia\u00e7\u00e3o, etc. Sendo que estes s\u00e3o aspectos que h\u00e1 que cuidar e ajudar os alunos a desenvolver, conv\u00e9m ter a no\u00e7\u00e3o das capacidades e limites quer das diferentes faixas et\u00e1rias, quer dos pr\u00f3prios indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Espero que seja \u00f3bvio que esta mensagem n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica ou coment\u00e1rio \u00e0s escolhas da Samy, nem pretende hostilizar ning\u00e9m que acredite muito convictamente nestas ideias. Queria apenas partilhar estas reflex\u00f5es porque me parece que um certo esp\u00edrito doutrin\u00e1rio e program\u00e1tico (que encontro nesta parte do texto de Jorge Pinto), n\u00e3o raro exageradamente &#8220;rom\u00e2ntico&#8221;, adoptado por alguns autores na \u00e1rea da Pedagogia ou das Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o, teve como resultado uma forte reac\u00e7\u00e3o a que hoje se assiste:\u00a0a Pedagogia \u00e9 vista\u00a0como uma aldrabice que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o e que, bem pelo contr\u00e1rio, \u00e9 at\u00e9 prejudicial, e exige-se uma escola pragm\u00e1tica, assente nos resultados e na performance mensur\u00e1vel, na standardiza\u00e7\u00e3o e ao servi\u00e7o da economia e do mercado de trabalho, uma escola expurgada de idealismos ou romantismos. Isso n\u00e3o me parece nada bom, mas para que essa perspectiva possa ser contrariada o discurso pedag\u00f3gico tem que encontrar um equil\u00edbrio que garanta a efic\u00e1cia das aprendizagens e seja compat\u00edvel com a realidade do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0parte do artigo de Jorge Pinto que se refere \u00e0 actua\u00e7\u00e3o do professor e \u00e0s formas de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela que me levanta mais d\u00favidas e inquieta\u00e7\u00f5es, porque a sinto como muito program\u00e1tica e reducionista, e vou tentar explicar porqu\u00ea.&hellip; <a href=\"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/2006\/10\/11\/e-necessario-um-upgrade-de-algum-discurso-pedagogico\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-37","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-avaliacao-das-aprendizagens-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/josemota.pt\/mpel2006\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}