olá Ana
 não te preocupes… ainda por aqui andamos 
os livros são – sempre foram – uma constante da minha vida… acho que foi nos livros que cresci… não concebo viver num lugar sem livros, não consigo trabalhar num espaço sem livros… um dos maiores prazeres que sempre tive foi frequentar lugares com livros: Bibliotecas, alfarrabistas, livrarias… trabalho numa sala forrada a livros, tenho todos os livros que li na minha vida, desde a Cartilha Maternal de João de Deus (aquela por onde aprendi a ler) até à Tabuada Ratinho, assim como todos os livros escolares (até guardo um manual obtuso de uma disciplina de Introdução à Economia que tive no 9º ano em 1977-78, imagina)… os meus livros são o bem (material e virtual) mais precioso que tenho… não substituem, mas situam as pessoas da minha vida; passei grande parte dela, desde que me lembro, a ler… espero poder viver muitos anos para poder ler de novo todos os livros que tenho e todos aqueles que se atravessem no meu caminho… as tardes das minhas intermináveis férias de Verão eram passadas a ler, deixando passar as horas de maior calor para depois poder ir andar na minha saudosa bicicleta… adorava passar férias de Verão para Vila Nova de Milfontes (ainda um espaço onde se podia morrer em paz) porque a casa que os meus pais alugavam tinha uma estante enorme cheia de livros em que ninguém mexia o ano inteiro e que eu pude ler ano após ano e que depois fui comprando à medida que podia… os meus livros são uma das partes mais belas da minha vida e de mim 
estás a ver portanto Ana o que senti quando na Biblioteca da minha escola impuseram que os alunos não podem ir lá, estando em aula, sem a presença do professor… o que quer dizer que, na minha escola, se um aluno quiser e precisar de ir à biblioteca durante a aula e porque algo o impeliu ou interpelou para ir… pois… ou eu largo os outros na sala e vou com ele, ou ele não vai, ou vai e diz que não está em aula… NUNCA MAIS PUS OS PÃS NA BIBLIOTECA DA MINHA ESCOLA… 
 para mim a Biblioteca da minha escola deixou de ser uma biblioteca, passou a ser um serviço autista com livros 
enquanto a Biblioteca existiu lá para mim… todos os anos fazia duas sessões de aula de Educação Visual (ou de qualquer outra disciplina que desse nas Artes) naquele espaço… fazia imensas actividades com os alunos a partir da Biblioteca… eles eram solicitados a recorrerem à Biblioteca em aula e fora dela para resolver problemas sobre imagens e informação escrita… quando apareceram os computadores os alunos tinham dois disponÃveis naquele espaço e tinham um com a base de dados do espólio que podiam consultar livremente… tudo era de livre acesso menos os diapositivos, as cassetes vÃdeo e os CD audio… a Biblioteca da minha escola, graças a uma professora de Filosofia que estava à frente do serviço, desenvolveu um projecto absolutamente fantástico, com actividades que levaram até à quele bairro quase miserável e indigente escritores, ilustradores, actores, jornalistas… os alunos produziam material que dava lugar a exposições sistemáticas, debates, colóquios… como se ganhou com imensa justiça um concurso nacional de Bibliotecas Escolares, o dinheiro investido tornou a Biblioteca num Centro de Recursos alargado… curiosamente está tudo morto… não por causa dos computadores, não por causa da Internet, da TV, ou de qualquer tecnologia… tudo está morto porque quem não ama o saber não ama os livros nem nada que sirva de suporte ao conhecimento, no computador ou na lista telefónica, ou até na cabeça dos outros… a Biblioteca da minha escola é hoje um lugar onde só não morremos porque alguém ainda se lembra de abrir a porta e as janelas e deixa entrar o ar…
parece-me Ana que o problema do conflito dos livros com a Internet é insanável… e para mim mal nenhum vem ao mundo; muitos livros estão já disponÃveis na Net e podemos investir parte do nosso tempo livre a passar para lá mais alguns integrados num Projecto… http://www.pgdp.net/c/faq/ProoferFAQ.php
quanto a mim, o que interessa é passar mensagens construtivas aos nossos alunos/filhos utilizadores… para que eles percebam que nem tudo dá mais jeito em suporte de papel, nem tudo é melhor ou mais fácil porque está na Net ou no computador… creio que falámos disto já, noutra sede deste Mestrado… por isso, a Biblioteca viverá (algumas já têm espólio de documentos fotocopiados até)… para mim está bem (quero lá saber donde me chega o conhecimento… desde que venha)… agora espero que não me deixem sem livritos em suporte de papel… ia mesmo ficar muito triste 
um abraço Ana “>)