O Fenómeno da Cibercultura – Comentário

Os sistemas tecnológicos produzem-se socialmente e a produção social é determinada pela cultura

Esta afirmação de Castells, que este usa como ponto de partida para dizer que “a cultura da Internet é a cultura dos criadores da Internet”, é da maior importância, porque põe em causa a perspectiva mais ou menos disseminada entre muitas das vozes que reflectem sobre o impacto e o papel das (novas) tecnologias na sociedade e nos indivíduos. De facto, ao contrário da crença de que são os avanços tecnológicos que vão moldando a sociedade e as formas de viver e comunicar, podemos, a partir desta ideia, perspectivar o processo de um outro ângulo: são as dinâmicas culturais e os processos de transformação social que favorecem ou potenciam o desenvolvimento tecnológico, condicionando-o ou moldando-o como resposta a necessidades não preenchidas e que, através dele, encontram formas operacionais de se exprimir e realizar.

Este deslocamento do olhar sobre as tecnologias como o motor das transformações para os processos culturais e sociais que estão na base do desenvolvimento tecnológico ajuda desde logo a explicar, por exemplo, a história (já relativamente longa) do insucesso da introdução dos computadores nas escolas, ou os enganos e mal-entendidos em que se têm arrastado boa parte das experiências na área do ensino online ou do e-learning.

Sem as convulsões registadas nos anos 60 nos Estados Unidos da América, que passaram muito pela desvinculação de uma elite universitária face a um modelo de sociedade em que não se reviam e que queriam mudar profundamente, jamais teríamos tido a Internet como a conhecemos hoje (a Universidade de Berkeley, por exemplo, centro do “Free Speech Movement” e da contestação aos poderes instituídos nos anos 60, emerge na década seguinte como um dos principais pólos de desenvolvimento tecnológico que está na base da Internet). A expansão e a valorização do conceito de liberdade individual, a descoberta do conhecimento enquanto valor económico primordial, a resistência à autoridade e à organização “vertical”, privilegiando-se uma organização “horizontal” de partilha, cooperação e co-responsabilidade são alguns dos aspectos que resultaram desse processo e que se encontram embebidos na própria natureza da Internet. Conceitos em voga nos anos 70 e 80, quando a Internet dava os primeiros passos e se desenvolvia, como “small is beautiful”, “think globally, act locally” ou a “grassroots economy” centravam-se precisamente na ideia de redes de partilha (de poder, de competências e de conhecimentos), cooperação e entreajuda, que constitui um dos pilares do open source e do software livre.

Muitos destes aspectos estão presentes em três dos quatro estratos culturais que, segundo Castells, produziram e moldaram a Internet: a cultura tecnomeritocrática, que promove o desenvolvimento tecnológico segundo um modelo académico – investigação científica partilhada, reputação e reconhecimento obtidos mediante a qualidade e a operacionalidade do trabalho produzido, a avaliação pelos pares e a publicitação e disseminação da investigação realizada e do conhecimento construído; a cultura hacker, constituída por wiz kids que privilegiam sobretudo a liberdade, a cooperação, a reciprocidade e a informalidade, livres de constrangimentos institucionais e/ou corporativos e que encontram na rede e na virtualidade o seu habitat natural; e as comunidades online, que deram conteúdo e expressão social ao uso da tecnologia, trazendo para a rede a vida social e usando-a para expandir as formas de interacção, cooperação e entreajuda.

Ironicamente, a Internet como meio privilegiado de comunicação e acesso à informação que conhecemos hoje, massificada e largamente disseminada, não teria sido possível sem um quarto estrato cultural: o dos empresários capitalistas. Largamente alheios aos altos e nobres princípios e valores dos restantes estratos, interessados apenas em fazer dinheiro, o mais possível, foram no entanto eles que emprestaram ao conhecimento disponível o investimento necessário para a sua concretização a larga escala.

Hoje, o espaço privilegiado onde se desenvolve a cultura digital – a Internet – é ainda um contexto muito heterogéneo, onde novas formas muito eficientes de comunicar e de armazenar, processar e distribuir informação coexistem com formas muito anárquicas e de baixo valor informativo e comunicativo. Por outro lado, a diversidade de práticas e experiências que resultam de uma grande variedade de subculturas e redes de interesses fazem da cultura digital um conceito complexo e multifacetado.

Num certo sentido, se podemos já falar de cultura digital, ela pode ser vista como um estádio que exprime ou reforça muitas das características presentes na sociedade pós-moderna: a problematização da identidade; as questões ligadas à autenticação do discurso; o esbater das barreiras entre produtor e receptor; a fragmentaridade e a relativização do conhecimento; o esbatimento da noção de verdade em favor das noções de funcionalidade e operacionalidade; a preponderância da linguagem como forma de interpretar o mundo (e o que daí resulta, dada a natureza ambígua da linguagem, mas também a sua tendência para se instituir como poder); os efeitos de colagem e sobreposição; ou uma certa resistência “intuitiva” ao poder e à autoridade, em favor da partilha e da cooperação (ainda, do vertical ao horizontal).

A cultura digital parece incorporar muitos dos elementos constitutivos da natureza da Internet,  assumindo, com frequência, um carácter de contra-cultura e de contra-poder(es), um espaço de liberdade ainda não submetido às lógicas de mercado, do controlo da opinião ou dos media, descentralizado e “deslocalizado”. Daí ser interessante a referência que Slevin faz à noção de “esfera pública” de Habermas, definida como “a forum, constituted by a community of individuals, coming together as equals, capable of producing and reproducing a public opinion through critical discussion, argument and reasoned debate”. E não sendo só isto, a cultura digital pode ser também isto, expresso na imensidão de blogues orientados para a discussão pública dos mais variados temas, incluindo a questionação da informação veiculada nos media dominantes, como a televisão, a rádio ou os jornais, ou os fóruns de discussão onde milhões de pessoas em todo o mundo se envolvem em verdadeiras redes de debate e de partilha de informação e de conhecimento.

Em suma, eu diria que a cultura digital é ainda um conceito instável e em progresso, mas que me parece construir-se na confluência das características já referidas relativas à génese e desenvolvimento da Internet e das problemáticas centrais na cultura pós-moderna, que encontra no contexto das redes digitais uma ecologia propícia à sua natureza e forma(s) de ser. Resta saber se, tal como a “esfera pública” de Habermas, a cultura digital vai acabar por ser dominada pelos interesses comerciais e pela intervenção dos estados, sempre ávidos de controlar o(s) discurso(s) público(s) ou se, pelo contrário, vai conseguir preservar as características que herdou dos processos sociais e das dinâmicas culturais que lhe deram origem.

josemota

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